Com a crise, cresce busca por seguro educacional

Com a crise, cresce busca por seguro educacional

Ao ser demitida em agosto, uma das principais preocupações da estudante de Administração Karine dos Santos Alves, de 27 anos, foi o que faria para não interromper o curso. Ela já tinha abandonado a faculdade por problemas pessoais quando tinha 20 anos e não queria o mesmo destino.

— Fiquei muito triste quando me demitiram depois de oito anos. Minha primeira preocupação era como faria para manter a faculdade. Sabia que meu marido poderia manter a casa até eu encontrar outro emprego, mas meu estudo ficaria em risco. Acabei descobrindo, por acaso, que tinha direito a um seguro pela universidade para bancar seis meses de mensalidade — disse a estudante, que cursa o segundo período no campus Norte Shopping da Estácio de Sá.

O aumento do desemprego, a recessão e o receio de inadimplência por parte das instituições de ensino têm aumentado a procura pelo seguro. Dados da Federação Nacional de Previdência Privada e Vida (FenaPrevi) mostram que os prêmios (receita) de seguros educacionais chegaram a R$ 34,35 milhões no período de janeiro a setembro de 2016, um salto de 76,7% em relação a igual período do ano passado.

— A demanda por informações mais que dobrou. Temos percebido uma preocupação grande das escolas por causa do aumento do desemprego, como forma de reduzir a inadimplência — afirma Jaqueline Reis, gerente de seguro de vida do grupo segurador Banco do Brasil e Mapfre.

O mesmo aumento da procura foi percebido pela Tokio Marine, segundo a diretora de Pessoas da seguradora, Nancy Rodrigues. Em sua avaliação, o momento econômico e o aumento do desemprego ajudam a explicar este movimento.

CONTINUIDADE DOS ESTUDOS

O seguro educacional é geralmente feito pelas próprias instituições de ensino — seja universidades ou escolas —, que fecham contratos com as seguradoras para todos os seus alunos. Assim, a proteção já está incluída no contrato estudantil, como um plano único. A contratação de seguro individual é possível, mas nem todas as empresas oferecem o produto.

Uma das vantagens é a garantia da continuidade dos estudos no caso de crise na família, segundo o vice-presidente da Federação Nacional dos Corretores de Seguros (Fenacor), Robert Bittar:

— A educação é um custo importante no orçamento das famílias e o seguro é um instrumento barato que permite a continuidade dos estudos no caso de uma crise.

Foi o que ocorreu na família de Fabio Silva, de 43 anos, que perdeu o emprego este ano como analista de sistemas, após 26 anos na mesma empresa. Graças ao seguro, seis mensalidades dos filhos Vinicius, de 11 anos, e Bianca, 6, foram pagas.

— Na hora da crise, a gente pode tirar alguns confortos para reduzir o orçamento, mas a escola é um gasto fundamental. O seguro dá um alívio momentâneo, ajuda na reorganização dos gastos — lembra ele.

O custo do seguro educacional varia em geral entre 1,5% a 4% do valor da mensalidade, de acordo com o tipo de cobertura. As mais básicas incluem o pagamento do seguro no caso de morte ou invalidez do responsável financeiro pelo aluno. Mas é possível contratar também cobertura adicional para desemprego, que é o principal fator por trás do aumento da procura pelo produto, segundo especialistas do setor.

ATENÇÃO ÀS CONDIÇÕES

Segundo Jaqueline Reis, do BB Mapfre, os seguros com cobertura para perda de renda acabaram virando praticamente uma norma:

— Hoje, praticamente ninguém compra mais o seguro sem cobertura para o caso de desemprego. Virou padrão.

As apólices do seguro cobrem entre três e seis meses de mensalidade. Em algumas, as coberturas por morte e invalidez podem garantir a conclusão de um ciclo de ensino, seja o fundamental ou o médio.

Para ter direito ao seguro, as mensalidades devem estar em dia. É preciso ficar atento, no entanto, às condições para o pagamento do sinistro (indenização). Em alguns seguros, o benefício só vale para quem tem pelo menos um ano na mesma empresa, com carteira assinada. Em outros casos, também estão incluídos trabalhadores autônomos e empresários.

— A opção de perda de emprego é um adicional, não está presente em todos os contratos. Antes de aderir, é preciso saber exatamente o que se está comprando para não se frustrar depois. É importante a orientação de um corretor de seguros — diz Bittar.

Para as instituições de ensino, o seguro educacional é tanto um benefício para os alunos quanto uma forma de reduzir o risco de inadimplência.

— A Estácio sempre ofereceu o seguro educacional, mas antes era uma apólice individual. No ano passado, mudamos e a apólice passou a valer para nossos 310 mil estudantes. É um benefício. Queremos dar um conforto ao aluno e ao mesmo tempo preservamos nossos recebíveis, nosso fluxo financeiro — destaca o diretor financeiro da Estácio de Sá, Leonardo Moretzsohn.

Ele lembra que a morte de um familiar ou a perda do emprego é um trauma na vida familiar:

— O seguro dá uma tranquilidade para colocar a vida nos trilhos de novo.

Nos últimos 16 meses, cerca de 2,5 mil alunos recorreram ao seguro para arcar com as mensalidades. Para Moretzsohn, da Estácio de Sá, “uma parcela significativa” desse total é reflexo de desemprego na família.

 

Fonte: CQCS